Quando me lembro da gente, tudo rescende à adolescência.
Nós, debruçadas na sacada da Galeria, fumando, tirando sarro das roupas das patricinhas e maldizendo a vida por puro esporte…ou porque éramos mais criativas e engraçadas, ferinas, desdenhando de algo do que elogiando, talvez. Exaltar (e praticar) virtudes nunca foi o nosso forte…
Nossos problemas iam do vestibular a namorados escrotos que não sabiam transar, de flertes inconsequentes capazes de colocar nossas poucas amizades femininas em risco à dificuldade em guardar dinheiro para comprar a próxima coletânea do X-Mal Deutshland, passando por nossos pais, a política, esse país, essa vida besta, a falta de perspectivas, a revolta… essa espiral descendente de pirações, roubadas e experimentações que tanto testou nossos limites, quanto explicitou nossas fragilidades….e nos ensinou, e nos moldou… e fez de nós as mulheres que somos hoje.
Seja isso algo bom ou ruim….
Me lembro de como, apesar de tudo ou talvez por isso tudo, o riso era fácil e de como todo sábado à noite sempre guardava a próxima ”melhor festa de nossas vidas” que, no final, era igual a qualquer outra festa que custumávamos frequentar: vinho barato, bizarrices, sexo, drogas e rock’n roll, a trindade infame padroeira dos condenados à prisão e ao peso da própria existência.
Me lembro de nossos corpos girando no ar, em êxtase, alheios a tudo e a todos, longe de nós mesmas e da realidade tediosa que nos cercava. Dervixes sombrios capazes de devastar qualquer resquício de adolescência saudável, feliz e completa.
Corpos negros, que, negros que eram, absorviam completamente qualquer tipo de radiação que neles incidia.
Tão bom saber que você me completava (completa). E lia minha mente, e sentia essa fome. Tão bom saber que “você terminava onde eu começo completamente pelo lado do avesso”. E sentíamos tudo, juntas.
Éramos tão felizes em nossa própria tragédia!
E agora, graduadas, na vida e nas artes, perfeitamente inseridas nessa tal de sociedade que tanto xíngávamos e que teve nosso mais profundo desprezo e ódio durante tanto tempo (e ainda os tem, de certa forma, em certos assuntos), atarefadas, responsáveis, cidadãs de bem, com carteira de trabalho assinada e comprovante de residência, ora veja…
Simplesmente não conseguimos mais nos encontrar.
Somos tão trágicas em nossa própria felicidade!
E o riso não é mais tão fácil, na verdade precisa ser cultivado sob o risco de se extinguir, e o amanhã não guarda mais a “melhor festa do resto de nossas vidas”, aliás, fugimos delas e preferimos pétite comitèes, poucos, bons e perenes amigos, não mais com vinho barato, mas com garrafas que custam muito mais do que sonhávamos jamais poder pagar…e o sexo? ah sim, esse continua, mas não mais em festas…drogas? bem, paramos porque comprometem nosso rendimento “na firma” e o salário no fim do mês …
da torpe trindade só sobrou o rock’n roll cultivado agora nesses malditos Ipods, a válvula de escape aceita pelo coletivo, que possui a assombrosa capacidade de emprestar uma trilha sonora à nossa vida, tornando-a malditamente lírica e saudosista…causando rompantes… e textos como esse.
Simplesmente porque ouvi uma música que me lembrou de nossa adolescência, enquanto passava pelo local onde constumávamos nos encontrar…e o tempo parou.
Tenho saudades de você.
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