18.8.10

PALAVRAS MUDAS


O ruído do ar-condicionado era impróprio ao silencio apreensivo do carro. Ele apenas aguardava as palavras dela, como quem aguarda uma sentença. Esperou. Esperou. A falta de diálogo aumentava seu incomodo, mas nada disse. O momento despertava insegurança, mas conteve a emoção em algum lugar incerto entre a garganta e o peito. A ausência de palavras dela o confundia. Os olhos que ele aprendera a desvendar carregavam uma paz incompreensível, pensou. Ela o tocou. Delicadamente, para somar surpresa. Respirou sem pressa. O olhou sem medo. E juntou à face uma daquelas expressões femininas indecifráveis, indescritíveis. Não era raiva. Mas também não sorria. Ele apenas continuou assistindo aos seus movimentos, tranqüilos. No fim de alguns segundos ela voltou a se mexer. O beijou, com sutileza. Na face. E saiu do carro calmamente ao invés de falar algo, virou de costas em vez de dizer adeus, encostou a porta em vez de batê-la. Ele continuava imóvel. Calado. E já não era mais forte o suficiente para esconder a emoção. Como poderia agir dessa maneira, como se nada estivesse acontecendo? Neste instante, só lhe restava observar, pela ultima vez, o andar lento dela até a porta de sua casa, o mesmo de sempre. O beijo tinha sido a despedida.Era um fim de tarde cinza de domingo, a rua estava vazia, o vento forte anunciava a previsão de chuva para o começo da noite. Antes de dar partida ao carro e inundar seus olhos, ele pensou alguns minutos consigo. Nunca se sentira tão agredido em toda sua vida.

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